Às vezes lágrimas não são o suficiente.
Aqui estou eu. Homem feito, e ao mesmo tempo quebrado. Expondo da mesma forma que expus quando comecei a escrever, tentando mostrar algo para o mundo e que ele refletisse de mim uma visão mais real. Dentro de mim tudo é fantasia.
Há muito tempo estou fugindo de mim. Coisas irresolvidas no pântano da minha sobriedade, entorpecidas e diafragmadas em rajadas de perfume grotesco. Entreguei-me ao horror para não encarar a mim mesmo.
Sim, a superficialidade é como uma droga. Poderosa, inebriante, antidepressiva. Mas existe algo dentro de mim rugindo, uma dor que precisa ser posta para fora.
Eu amei. Amei como um homem deve amar. Fui completamente sóbrio do que estava fazendo, sem êxtase de paixão, sem necessidade de poesia. Aprendi a amar dia após dia.
Desfiz-me da armadura de escuridão, solidão e silêncio. A morte que caminhava junto comigo extinguiu-se junto à sombra quando a luz de um amor, de um sentimento mais profundo que a vida irradiou.
Irradiou e queimou meus medos. Mas queimou também meu coração e meus sentidos.
E fui abandonado. Fui largado. Fui deixado por não ser capaz de prover a um relacionamento suas coisas básicas. Estabilidade, conforto e isso dói. Dói de uma forma que nem todas as palavras seriam capazes de descrever. Dói como jamais doeu nenhuma dor, nem a de perder alguém para a morte, pois sabemos que a morte é irremediável. Inevitável.
O amor não.
Ele escolhe você e você o escolhe.
E isso depois se torna a face mais cruel do que você passou.
Vejo pessoas dizendo que eu preciso viver mais, sair mais, transar mais.
Não, eu não suporto esse mundo de apelos vazios. Faz um mês que estou solteiro e acompanhado. Nunca estive tão sozinho. Nem quando estive só. Nem quando a minha solidão me afastava do mundo.
O que dói é saber que eu devia ter morrido jovem. Não há sentido em ser suicida, sem tirar a própria vida. Eu deveria ter morrido cedo.
Não, não é um ápice de depressão e eu não vou me matar. Estou apenas constatando
Ou morremos logo ou vemos todos os nossos ideais de juventude afundar-se em contas para pagar, viagens não feitas, móveis não comprados... Eu que sou de aço me vi amargar não poder ir a um restaurante.
MAS QUE MISÉRIA DE MUNDO HORROROSO.
Quer dizer que somos isso? Dinheiro? Essa é a medida de toda a existência?
Não, não tenho porque continuar vivo, embora continuarei.
Nesse momento reaproximar-se da morte é a única forma de enxergar a vida por uma lente que não esteja embaçada pelo mundo.
Preciso me contorcer de dor. Preciso gritar no travesseiro, preciso urrar e cortar a própria pele. Expurgar o mal que existe em mim até que ele se torne luz.
"Você deve viver mais" o que podem dizer essas pessoas que não amaram a alguém mais do que a si mesmas? O que dizer dessas pessoas que não sentiram que a vida se perderia caso perdessem a amada?
E eu perdi. Perdi meu amor. Perdi meu centro do mundo, porém, eu não sou um só. E a saudade de quem eu era com ela chega a torturar. Sim, eu sei que amarei denovo. Isso me sustenta. Eu sei que a vida não acabou.
Mas aquele rapaz está morto. Entre os escombros do meu apartamento.
Encontro pedaços de quem eu era e de como eu vivi.
Eu sei que eu não era feliz, mas eu não precisava
pois eu não era só.
Mas depois de tudo isso eu sei que me reerguerei, não precisa me avisar. Sim, eu serei mais forte e mais maduro do que a maioria dos homens na minha idade. E não adianta fingir que eu quero ser jovem porque não quero. Nesse exato momento eu sou apenas um homem que voltou a ser garoto. Estou quebrado e perdido.
Aqui estou eu.
Que agora cicatrize as feridas.
Basta oxigenar e as bactérias pútridas se eliminam.
Neste exato momento, pela primeira vez em um bom tempo na minha vida, eu sou de verdade.
Bem vindo de volta Adonay.
Quanto tempo não estivemos juntos.
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